Centenário da Revolução de 1923

A última guerra do Rio Grande

A Revolução de 1923 encerrou o “século revolucionário” gaúcho, iniciado com a Revolução Farroupilha (1835-1845) e seguido pela Revolução Federalista (1893-1895). Embora, aparentemente, tenha sido a guerra menos letal ocorrida no período, não deixou de envolver grandes contingentes de combatentes e afetar várias regiões do Estado. José Narciso da Silveira Antunes estabeleceu uma cronologia dos combates, que foi organizada e publicada em formato de livro por Jorge Telles, em 2023. Nesta obra, “O diário de 1923”, estão elencados 283 combates travados entre 11 de janeiro e 15 de dezembro de 1923. Segundo Sérgio da Costa Franco, cerca de mil pessoas perderam a vida ao longo da guerra.

Cronologia da Revolução

Clique nas datas.

Pleito para a presidência do Rio Grande do Sul (atual cargo de governador). O então Presidente do Estado, Antônio Augusto Borges de Medeiros, do Partido Republicano, enfrentou Joaquim Francisco de Assis Brasil, apoiado pelo Partido Federalista. Borges venceu a eleição e assumiu pela quinta vez a chefia do Poder Executivo gaúcho, a terceria de forma consecutiva.

No início da década de 1920, fatores econômicos contribuíram para que a situação política no Estado se radicalizasse. Durante a Primeira Guerra Muncial (1914-1918), o setor agroexportador gaúcho prosperou ao suprir as demandas de regiões afetadas pelo confronto. Grandes agricultores e pecuaristas, e o próprio governo gaúcho, investiram em melhorias infraestruturais. No entanto, a partir do final de 1920 o crédito internacional se tornou mais caro, comprometendo as finanças públicas e privadas. A incapacidade ou recusa do governo em auxiliar os produtores abriu espaço para a candidatura oposicionista de Joaquim Francisco de Assis Brasil.

A derrota da oposição, que não reconheceu a legitimidade do pleito de 1922, acirrou as tensões. A posse de Borges de Medeiros, em 25 de janeiro de 1923, já se daria em um Estado conflagrado.

Borges de Medeiros e Assis Brasil

O Presidente da República, o mineiro Arthur Bernardes, informa a Assis Brasil que não aceitará o posto de árbitro nas discussões do Rio Grande do Sul sobre a legalidade, ou não, da vitória de Borges de Medeiros. No documento, que faz parte do acervo de Assis Brasil, Bernardes afirma: "como Presidente da República, a Constituição me dá atribuições e me impõe deveres cujo exercício pode colidir com os daquela elevada incumbência. Tal circunstância me torna o único cidadão que não pode aceitar ativamente a função de árbitro nesse incidente da vida política de seu Estado". Ao lado, um trecho desta carta.

Carta de Arthur Bernardes a Assis Brasil

É registrado o primeiro enfrentamento armado do que viria a ser a Revolução de 1923. Tropas sob o comando do General João Rodrigues Menna Barreto entraram em combate com forças legalistas na divisa dos atuais municípios de Guaporé e Passo Fundo.

Os confrontos da Revolução não ameaçaram a capital, Porto Alegre, mas foram registrados em várias localidades do interior.

Alguns deles acabaram entrando para a história do Rio Grande do Sul. É o caso do combate da ponte do Ibirapuitã, de 19 de junho, em que o Coronel legalista José Antonio Flores da Cunha, auxiliado pelo militar uruguaio Nepomucemo Saraiva, enfrentou o General federalista Honório Lemes. Os maragatos de Lemes tiveram quarenta baixas, com treze mortos e vinte e sete feridos. Outro grande combate se deu no Passo da Juliana, às margens do rio São Sepé, no dia 6 de setembro, em que o comandante federalista Estácio Azambuja enfrentou o Coronel legalista Claudino Nunes Pereira. As baixas das tropas oficiais chegaram a trinta mortos e cento e vinte feridos.

Tropas legalistas em Passo Fundo

A Comissão de Constituição e Poderes da Assembleia Legislativa do Rio Grande do Sul confirma, em processo de revisão, que Antônio Augusto Borges de Medeiros, de fato, venceu o pleio de 25 de novembro de 1922. Esse foi um dos pontos principais a gerar discórdia entre os federalistas apoiadores de Assis Brasil.

Segundo a Constituição do RS, por concorrer à reeleição, Borges deveria obter 75% dos votos dos gaúchos. A Comissão proclamou dessa forma o resultado final: Antônio Augusto Borges de Medeiros, 106.319 votos; Joaquim Francisco de Assis Brasil, 32.217 votos. Entre os integrantes da Comissão estava o jovem deputado do Partido Republicano, Getúlio Dornelles Vargas, que seria presidente da República anos depois. Além dele, o colegiado foi composto pelos deputados Ariosto Pinto e José de Vasconcelos Pinto. 

Getúlio Vargas, importante personagem nos acontecimentos de 1923

Antônio Augusto Borges de Medeiros toma posse no cargo de Presidente do Estado do Rio Grande do Sul. Seria seu quinto mandato à frente do executivo gaúcho, o terceiro em sequência. Cecília de Assis Brasil, filha do candidato derrotado, Joaquim Francisco de Assis Brasil, anota em seu diário: "É hoje a posse do chimango". O termo "chimango", apesar de ter se tornado sinônimo de republicano no Rio Grande do Sul, nasceu com conotação pejorativa.

A posse de Borges precipitou definitamente os acontecimentos em direção da guerra. 

Posse de Borges de Medeiros (Acervo Correio do Povo)

Grupo de militares revoltosos, em reunião ocorrida no norte da região serrana do Rio Grande do Sul, deliberaram por não aceitar um acordo de paz proposto a Assis Brasil pelo presidente da República, Arthur Bernardes. A ata deste encontro resume vários dos impasses colocados para as negociações de paz. Entre os pontos discutidos estava a decisão de Borges de Medeiros de não se afastar do cargo. Esse foi um dos pontos-chave a travar as conversações para o fim do conflito. Também pesava na decisão de seguir a guerra o esforço despendido até então. Segundo levantamento de José Narciso da Silveira Antunes, até a data da reunião, 132 combates já haviam ocorrido em várias regiões do estado.

Primeira página da ata que recusa acordo de paz

General rebelde José Antônio Neto, conhecido como Zeca Neto, realiza uma das mais espetaculares ações militares de toda a Revolução de 1923, quando toma, por algumas horas, o controle da cidade de Pelotas, então a mais populosa localidade do interior gaúcho. Conforme o historiador Arthur Ferreira Filho, as tropas legalistas sofreram pesadas perdas – entre os mortos, dois majores e dois tenentes. Entre o exército federalista, contaram quatro mortos e 17 feridos.

Segundo narraram as fontes federalistas, o general foi aclamado por parte da população na Praça Pedro Osório. O dia teria sido de festa em Pelotas, com a maior parte dos populares se mostrando receptivos à ação rebelde. As fontes legalistas, como o jornal pelotense "Diário Popular" registraram o acontecimento de outra forma: "Foi com a mais viva das emoções que a população honesta de Pelotas, acompanhou o desenrolar dos bárbaros acontecimentos da manhã de 29. [...] O inimigo ciente de sua inferioridade moral, sem a coragem que só as grandes causas imprimem aos seus palinuros, ocultou-se, precavidamente nos edifícios e anteparos circunvizinhos." (Diário Popular, 01.11.1923, citado em artigo do historiador Jean Pierre T. da Silva, "A conquista de Pelotas sob o prisma do Diário Popular: um estudo de caso da Revolução de 1923").

Federalistas entram em Pelotas

O emissário do governo federal e ministro da Guerra, General Setembrino de Carvalho, encontra-se com Borges de Medeiros no palácio do governo gaúcho. Inicia-se a fase decisiva das negociações para a pacificação do Rio Grande do Sul. Setembrino repassa a informação de que o governo federal entende que o mandato de Borges é legítimo e se estabelece uma trégua nos combates, a vigorar a partir do dia 7 de novembro.

O General Setembrino se tornou uma das figuras mais importantes deste processo. Sobre ele, Sérgio da Costa Franco escreveu: "É inegável (...) que um relevante papel foi cumprido pela habilidade diplomática do emissário de Arthur Bernardes. Segundo ele mesmo resgistrou em suas reminiscências, não fosse a sua perseverança na ação pacificadora, sua resignação às decepções, sua paciência em suportar sérias contrariedades, 'a paz não seria realizada'".

Ministro Setembrino de Carvalho

Nas primeiras horas do dia, Assis Brasil assina o Pacto de Pedras Altas, acordo político que encerrava a última guerra do Rio Grande do Sul. A assinatura ocorreu no mítico castelo de Assis Brasil, localizado em Pedras Altas, interior do Rio Grande do Sul.

Castelo de Pedras Altas

Em cerimônia ocorrida no Palácio Piratini, o Presidente do Estado do Rio Grande do Sul, Antônio Augusto Borges de Medeiros, ratifica o acordo de paz assinado por Assis Brasil no dia anterior. Com a anuência dos dois líderes civis da Revolução, selava-se a paz entre chimangos e maragatos.

Borges de Medeiros ratifica o Pacto de Pedras Altas (Acervo Correio do Povo)

No mesmo dia em que Borges de Medeiros ratificou o Pacto de Pedras Altas, assinado na véspera pelo líder maragato, Joaquim Francisco de Assis Brasil, temos o registro do último combate da Revolução de 1923. O enfrentamento ocorreu no chamado Rincão da Fortaleza, parte do atual município de Seberi. Um capitão federalista, de nome Pedroso, enfrentou uma tropa do governo, com o trágico saldo de quatro mortes e sete feridos.

A cronologia dos eventos da Revolução de 1923 foi compilada na obra "O Diário de 1923", escrita por José Narciso da Silveira Antunes e disponibilizado em edição de 2023, organizada por Jorge Telles.

Os protagonistas da Revolução de 1923

A última guerra dos gaúchos contou com a participação de um enorme contigente humano. Pouco se sabe sobre a realidade vivida pelos combatentes de patentes militares mais rasas, como é usual em acontecimentos históricos como a Revolução de 1923. Mas, entre as figuras públicas mais conhecidas envolvidas nesse processo, quatro merecem um destaque especial. Três gaúchos e um mineiro: Antônio Augusto Borges de Medeiros, Joaquim Francisco de Assis Brasil, Setembrino de Carvalho e Arthur Bernardes. Abaixo, vamos conhecer um pouco mais sobre cada um deles.

Antônio Augusto Borges de Medeiros

(1863-1961)

Natural de Caçapava do Sul-RS. Foi um republicano histórico. Estudou Direito em São Paulo-SP e em Recife-PE. Sucedeu Júlio de Castilhos no comando do Partido Republicano Riograndense e foi Presidente do RS por cinco mandatos, tendo sido eleito a última vez em 1922. Liderou as formas legalistas na Revolução de 1923.

Joaquim Francisco de Assis Brasil

(1857-1938)

Natural de São Gabriel-RS, foi produtor rural, político, jurista e embaixador. Primeiro deputado republicano da AL-RS (1885). Em 1922, concorreu à Presidência do RS com apoio dos federalistas. Foi o líder civil da Revolução de 1923. Em 1932, participou da comissão de juristas que elaborou o primeiro Código Eleitoral republicano.

Fernando Setembrino de Carvalho

(1861-1947)

Natural de Uruguaiana-RS. Engenheiro militar, teve longa carreira em várias regiões do país. No governo de Arthur Bernardes (1922-1926) foi ministro da Guerra, desempenhando um papel decisivo nas negociações de paz em meio à Revolução de 1923, que culminaram na assinatura do Pacto de Pedras Altas.

Arthur da Silva Bernardes

(1875-1955)

Natural de Viçosa-MG. Formado em Direito, elegeu-se presidente do estado de Minas Gerais em 1918. Em 1922, foi eleito Presidente da República. Não aceitou a posição de árbitro do conflito que levaria à Revolução de 1923. No entanto, designou seu Ministro da Guerra, Setembrino de Carvalho, para mediar, com sucesso, o fim dos combates.  

José Antônio Flores da Cunha

(1880 - 1959)

Natural de Santana do Livramento-RS. Foi um dos mais importantes líderes militares legalistas da Revolução. Depois disso, entre 1930 e 1937, foi Interventor Federal e Governador do RS. Publicou "A Campanha de 1923", reeditado em 2023.

José Antônio Matos Neto

(1854-1948)

Natural de Bagé-RS. Foi um dos principais generais revoltosos ao longo da Revolução de 1923. Em setembro, protagonizou uma das mais impressionantes ações militares da guerra, quando suas tropas tomaram a cidade de Pelotas por algumas horas.

Osvaldo Aranha

(1894-1960)

Natural de Alegrete-RS. Foi Tenente-Coronel legalista em 1923. Seguiu uma brilhante carreira política e diplomática, sendo Prefeito de Alegrete-RS, Deputado Federal, Ministro de Estado e representante do Brasil na ONU.

Honório Lemes

(1864-1930)

Natural de Cachoeira do Sul-RS. Foi um raro pequeno proprietário que se destacou como oficial das forças revoltosas em 1923. Recebeu o apelido de "Leão do Caverá", por ser um grande conhecedor da Serra do Caverá, entre Rosário do Sul e Alegrete.

Historiografia - Obras sobre a Revolução de 1923

Nos útlimos anos, em função do centenário da Revolução, várias obras sobre a última guerra dos gaúchos têm sido publicadas. Algumas delas, no entanto, são grandes clássicos sobre o tema. Abaixo, apresentamos um apanhado desses estudos. Basta clicar no título para acessar informações e resumos.  

As tensões, geradas pela liderança autocrática de Borges de Medeiros, levando a uma profunda cisão dentro da classe dominante gaúcha, cisão esta que teria como epílogo a luta armada de 1923 e, logo depois, o Pacto de Pedras Altas.

As causas desta cisão, a orientação das correntes em choque e as consequências da luta política e do conflito militar de 1923, nos quais se destaca a personalidade de Assis Brasil, é o tema de “RS: as oposições e a revolução de 1923”, que, abandonando as lendas e as visões pseudo-históricas e mistificadoras, nos fornece uma visão fria e coerente da evolução da sociedade gaúcha e da luta pelo poder no seio de sua classe dirigente nas primeiras décadas deste século.

Autora: Maria Antonieta Antonacci

Editora: Mercado Aberto

Ano de Publicação: 1981

Número de páginas: 116 pág.

O historiador militar Arthur Ferreira Filho em seu livro “Revolução de 1923” irá traçar um panorama histórico acerca do contexto em que ocorreu a revolução, quais seus agentes, seus interesses e as consequências desse conflito para a economia e política da região sul do Brasil à época. “Revolução de 1923” é considerado um dos livros de maior referência àqueles e àquelas que gostariam de se aprofundar no entendimento das características e suas complexidades desse período histórico no Rio Grande do Sul. Por fim, é importante ressaltar que Arthur Ferreira Filho irá narrar os conflitos entre Assis Brasil e Borges de Medeiros a partir de seu viés positivista.

Autor: Arthur Ferreira Filho

Editora: Porto Alegre

Ano de publicação: 1973

Número de páginas: 140 pág.

O conflito entre “chimangos” e “maragatos” – entre governo e oposição – foi um dos elementos fundamentais que caracterizam a política sul-rio-grandense na época da chamada República Velha, período que vai de 1890 a 1930.

Como é óbvio, este conflito não ocorria num mundo ideal de conceitos e valores político-ideológicos. Pelo contrário, como sempre, lançava profundas raízes na estrutura econômica do Estado. De um lado, o governo, encarnado pelo Partido Republicano Riograndense, “moderno”, favorável à centralização administrativa estadual e, consequentemente, buscando todo o apoio possível nos segmentos econômicos emergentes. De outro, os liberais, defendendo os interesses dos pecuaristas e charqueadores, por definição mais ligados ao passado.

Como todos os títulos da “Série Documental”, o livro de Pedro Cezar Dutra Fonseca é fundamental para a compreensão do passado no Rio Grande do Sul e, consequentemente, para a compreensão de seu presente.

Autor: Pedro C. Dutra Fonseca

Editora: Mercado Aberto

Ano de Publicação: 1983

Número de páginas: 139 pág.

O Fundo Borges de Medeiros, com farta documentação, permanece oculto no Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Sul. A presente publicação, detalhando bastidores das negociações para a pacificação do Rio Grande do Sul, que culminaram com a celebração do Tratado de Pedras Altas, aos 15 de dezembro de 1923, é uma fresta que Sérgio da Costa Franco abre aos leitores, permitindo o conhecimento deste surpreendente e fascinante personagem dos inícios do nosso século que foi Borges de Medeiros. Sérgio da Costa Franco é perito manejador da palavra. Nele a objetividade e o cuidado do historiador atento unem-se ao texto leve e interessante do jornalista acostumado a prender diariamente o leitor às suas crônicas.

Autor: Sérgio da Costa Franco

Editora: Editora da Universdade Federal do Rio Grande do Sul

Ano de publicação: 1996

Número de páginas: 144 pág.

A Campanha de 1923

José Antônio Flores da Cunha nasceu no município de Santana do Livramento em 5 de março de 1880. Homem público e destacado, foi Deputado Estadual e Federal, Interventor Federal e Governador do Rio Grande do Sul. Membro atuante do Partido Republicano Rio-Grandense, que representava os ideais castilhistas e borgistas, quando da quinta e última reeleição de Borges de Medeiros, as oposições, que haviam apresentado a candidatura do Dr. Joaquim Francisco de Assis Brasil, acusando de fraudulentos os resultados, pegaram em armas às vésperas da posse do longevo Presidente. Flores da Cunha, atendendo aos apelos do chefe, regressou ao Rio Grande do Sul para organizar e comandar a Brigada Provisória do oeste, à frente da qual se destacaria em diversos combates, sendo o mais tenaz adversário do caudilho maragato Honório Lemes, talvez o mais popular dos chefes oposicionistas em campo.

Essa rivalidade das armas não abafou, porém, a nobreza de coração de Flores da Cunha, que deu provas da garantia de vida proporcionada ao adversário aprisionado em 7 de outubro de 1925, entre o rio Ibicuí da Conceição e o banhado das Marrecas, já no decurso do movimento revolucionário tenentista que assolou o Brasil. Assim, Flores da Cunha em seu livro “A campanha de 2023” irá trazer relatos de sua “intervenção pessoal naquela luta fratricida e lastimosa”, como bem descreve.

Autor: José Antônio Flores da Cunha

Editora: Martins Livreiro e Edigal

Ano de publicação: 2023

Número de páginas: 290 pág.

O Dr. Antunes fez parte daquela elite social que deixou seus afazeres para atender ao apelo do movimento libertador que congregou federalistas e republicanos dissidentes na tentativa de dar um fim às intermináveis reeleições de Borges de Medeiros, desde 1898 no comando do Rio Grande do Sul. O pai, Coronel Zeca Antunes, fora Intendente Municipal de São Gabriel e divergia politicamente do governo estadual, seguindo a liderança do Dr. Fernando Abbot quando das eleições de 1907. Nada mais natural que os filhos o acompanhassem, ao lado de estancieiros, profissionais liberais e cidadãos comuns.

A cronologia da Revolução de 1923 é guia útil e precioso para conhecimento dos locais de reencontros e de seus atores, demonstrando o quanto o movimento se espalhara pelo território estadual. Jorge Telles complementou-a com o resumo histórico da Revolução, acrescentando-lhe a reprodução do Acordo de Paz de Pedras Altas, intermediado pelo Ministro de Guerra, General Fernando Setembrino de Carvalho.

Autor: José Narciso da Silveira Antunes

Editora: Martins Livreiro e Edigal

Ano de publicação: 2023

Número de páginas: 136 pág.

O engajado jornalista Carlos Reverbel em seu livro “Maragatos e Pica-Paus: guerra civil e degola no Rio Grande” irá em seus 12 capítulos narrar a partir de diversas fontes como se desenrolou a Revolução de 1923. Seu viés voltado aos “lenços vermelhos” — os maragatos — faz do livro um interessante relato de uma revolução que reuniu interesses políticos, econômicos e sociais divergentes em um campo político já bastante conturbado no qual o estado do Rio Grande do Sul se encontrava à época.

Autor: Carlos Reverbel

Editora: L&PM

Ano de publicação: 1985

Número de páginas: 94 pág.

Faroeste gaúcho: contrabando; duelos banditismo e revoluções. Borges de Medeiros: um chefe de polícia durão, mas que nunca tocou num revólver. O Estado sem autonomia frente à União. Um sistema de ferrovias, canais fluviais e portos perfeitamente absurdo, funcionando quando Deus queria. Aí os castilhistas resolvem botar ordem na confusão. Fazer do Rio Grande uma pequena pátria. Borges de Medeiros, em 25 anos de poder, patrocinado por fraudes eleitorais, causando levantes armados, tenta executar o plano. 1908, na construção do Porto Novo de Rio Grande, pela primeira vez um governante gaúcho enfrenta o capital estrangeiro. E vence. Um livro de História. Um livro de aventura.

Autor: Barbosa Lessa

Editora: RBS

Ano de publicação: 1985

Número de páginas: 103 pág.

A implantação da República no Rio Grande do Sul realizou-se dentro de um projeto de mudança radical da sociedade agro-pastoril para uma sociedade industrial, como evolução natural do progresso. Para atingir essa meta, tanto Júlio Prates de Castilhos como Antônio Augusto Borges de Medeiros, estabeleceram um sistema normativo e repressivo nos modos de pensar e de agir dos políticos sul-rio-grandenses. Para impedir e evitar a participação política da oposição, o governo usou de fraude eleitoral, nomeação de autoridades, perseguições aos adversários e ameaças, gerando a violência entre republicanos e liberais. A rebelião armada de 1923 passou à história com a denominação de Revolução de 23. Resta dessa rebelião uma memória fragmentada própria de uma sociedade em transformação que se perde cada vez mais por desapego das novas gerações ao passado.

Autor: Moacyr Flores

Editora: Pradense

Ano de publicação: 2014

Número de páginas: 91 pág.

Onde, como e por que maragatos e chimangos lutaram em 23 e 24? Se os maragatos vencessem em Mandiju e Honório Lemes tomasse as Missões, estaríamos, hoje, falando em Paz de Pedras Altas? Se os “tenentes” dominassem o Oeste do Estado, como seria a República? Por que ainda não foi dito que a Coluna Prestes nasceu em São Borja?

Diante de tais perguntas, o leitor contará com este livro, que ousa afirmar, recolocar marcos, aprofundar-se nas fontes, exumá-las em textos curtos enriquecidos pela sequência imprescindível das notas.

Conjunto harmônico entre fato e dado, a notícia não se faz simples glosa cordial, caudatária de verdades circunfusas, de narrativas tangenciais, de adesões platônicas, nem endossa verossímeis: faz-se história, (in)filtrada pela elaboração equidistante, tem toda a força do informe didático, decantado na pesquisa extensiva para divulgação intensiva; evoca, com intimidade, a incontrolável dinâmica do panorama autenticado pelo gládio dos nossos avós, pais e irmãos; traça, com lucidez, rigor e isenção, o valor, a estrutura e o processo das ações em que se empenharam aqueles que bravos que vão sendo, pela ingerência de uma certa cultura sem raízes, irremediavelmente arrolados num contundente fenômeno de esquecimento coletivo e anonimato sem glória.

Autor: Fernando O.M. O’Donnell

Editora: Martins LIvreiro

Ano de publicação: 1985

Número de páginas: 119 pág.

O Combate de Passo da Juliana foi o mais importante confronto armado ocorrido no município de São Sepé, na Revolução de 1923. O autor descreve o episódio usando variado substrato histórico, circunstanciado-o com acontecimentos nacionais, estaduais e municipais. Resgata e reaviva informações de importância na área de micro-história.

Embora o foco de interesse do autor se limite a um encontro de facções adversárias, no curso de um movimento revolucionário, mostra todo um clima de tensões políticas motivadoras e incentivadoras do conflito,

Neste trabalho o autor se apoiou, de maneira exemplar, em depoimentos, oralidade, memórias escritas por participante destacado da Revolução, atos oficiais, transcrições de manchetes, reportagens, notícias publicadas em jornais defensores de cada uma das parcialidades, historiador consagrado, escritores, além de uma ampla bibliografia. Uma História para todos entrarem na realidade.

Autor: Cesar Pires Machado

Editora: Pallotti

Ano de publicação: 1999

Número de páginas: 120 pág.

A Revolução de 1923 e o acervo histórico de Assis Brasil

O acervo histórico de Joaquim Francisco de Assis Brasil guarda boa parte da história política do Rio Grande do Sul entre as décadas finais do período imperial e sua morte, em 1938. A variedade dos temas presente na documentação reflete a amplitude de assuntos que pautaram a vida de Assis Brasil - da agropecuária à diplomacia, da ciência política à literatura e história. Em relação à Revolução de 1923, muito material ainda segue à espera de uma análise mais profunda, que possa iluminar aspectos ainda pouco explorados da última guerra entre os gaúchos. A seguir, trazemos alguns destes documentos.

Série Centenário da Revolução de 1923 em Imagem e Som

O Memorial da Justiça Eleitoral Ministro Teori Albino Zavascki publicou, entre meados de outubro e início de dezembro de 2023, uma série de oito vídeos sobre os princpais momentos da Revolução de 1923.

Clique nos títulos para acessar o material.

A Revolução de 1923 encerrou o "século revolucionário" gaúcho, iniciado com a Revolução Farroupilha (1835-1845) e seguido pela Revolução Federalista (1893-1895). Sua história se conecta com a Justiça Eleitoral pelo protagonismo de Joaquim Francisco de Assis Brasil, um dos responsáveis pelo Código Eleitoral de 1932, que criou nossa Justiça Especializada e instituiu o voto feminino.

No pleito para a Presidência do RS (atual cargo de governador), de novembro de 1922, o então Presidente do Estado, Antônio Augusto Borges de Medeiros, do Partido Republicano, enfrentou Assis Brasil, apoiado pelo Partido Federalista. Borges venceu a eleição, mas a derrota, num tempo em que não havia Justiça Eleitoral a garantir a integridade dos resultados, foi contestada pelos partidários de Assis Brasil.

A Revolução iniciou após a posse de Borges de Medeiros, ocorrida em janeiro de 1923, sendo encerrada apenas em dezembro, no célebre "Pacto de Pedras Altas".

Ep. 1 - A Campanha Eleitoral de 1922

A Revolução de 1923 opôs republicanos (chimangos) e federalistas (maragatos) em um confronto militar que atravessou todo o ano e custou a vida de mil pessoas. O estopim do conflito foi a eleição para o cargo de Presidente do Estado do RS (equivalente ao atual cargo de Governador), ocorrido em novembro de 1922.

Antônio Augusto Borges de Medeiros, do Partido Republicano, venceu Joaquim Francisco de Assis Brasil, encaminhando o que seria seu quinto mandato à frente do RS - o terceiro consecutivo. O pleito ocorreu 10 anos antes da criação da Justiça Eleitoral.

A oposição questionou o resultado da eleição. Antes da luta armada iniciar, outro importante personagem entrou para a história da Revolução de 1923: o então Presidente da República, Arthur Bernardes. É o que contamos no segundo episódio da série sobre o último conflito militar entre os gaúchos.

Ep. 2: O Apelo a Bernardes

Uma disputa eleitoral esteve na origem da última guerra que dividiu os gaúchos, a Revolução de 1923. Em novembro de 1922, o então Presidente do RS (cargo equivalente ao atual Governador), Antônio Augusto Borges de Medeiros, venceu a eleição contra Joaquim Francisco de Assis Brasil. Iria para seu quinto mandato no comando do estado, o terceiro consecutivo. 

No episódio de hoje, um apanhado da impressão da oposição sobre supostas irregularidades ocorridas ao longo daquela campanha eleitoral e no dia do pleito. O destaque é um relato de uma funcionária pública, Alice Bumbell, localizado no acervo histórico de Assis Brasil. Uma rara impressão feminina sobre a política daqueles anos. 

Tudo isso aconteceu uma década antes do aparecimento da Justiça Eleitoral, que só ocorreria em 1932. A Revolução de 1923 só seria encerrada em dezembro, no célebre Pacto de Pedras Altas.

Ep. 3: A oposição acusa!

São raros os grandes acontecimentos históricos que não envolvem,de alguma forma, questões econômicas. Na Revolução de 1923 não foi diferente. A Primeira Guerra Mundial, com suas trágicas batalhas na Europa, reestruturou parte do comércio internacional. O Rio Grande do Sul, especialmente seu setor agroexportador, acabou suprindo demandas de países envolvidos na guerra. O crescimento econômico levou os setores público e privado a investirem em melhorias na infraestrutura do estado.

Mas, no início da década de 1920, o cenário mudou. Restrições internacionais de crédito complicaram as finanças do Rio Grande do Sul. Os produtores rurais buscaram auxílio na Presidência do Estado. Foi um pedido em vão. O Partido Republicano, desgastado pelas três décadas no poder, oferecia munição para a articulação da oposição, que se materializou na candidatura de Joaquim Francisco de Assis Brasil à Presidência do RS. Apoiado pelos federalistas, Assis Brasil seria derrotado pelo republicano Antônio Augusto Borges de Medeiros no pleito de 22 de novembro de 1922.

Dez anos antes da criação da Justiça Eleitoral, a derrota não foi aceita e, no ano seguinte, seria deflagrada a Revolução de 1923, que seria encerrada apenas com o Pacto de Pedras Altas, celebrado em dezembro. Mil pessoas perderam a vida nos combates.

Ep. 4: As raízes econômicas da guerra

Após a vitória de Borges de Medeiros, e em função da regra constitucional gaúcha, que exigia que um candidato à reeleição para o cargo de Presidente do Estado obtivesse 3/4 dos votos, a oposição federalista questionou o resultado do Pleito. Uma Comissão da Assembleia Legislativa realizou a recontagem de votos. Entre seus integrantes estava o então jovem depiutado, Getúlio Dornelles Vargas, que governaria o país entre 1930 e 1945 e 1951 e 1954.

O resultado dos trabalhos da Comissão confirmou a vitória de Borges de Medeiros, em relatório apresentado à sociedade no dia 16 de janeiro de 1923. Os maragatos também não aceitaram essa decisão e o Rio Grande do Sul deu mais um passo em direção ao conflito armado.  

Ep.5: A Comissão de Vargas

Os combates da Revolução de 1923 iniciaram em janeiro, mesmo mês da posse de Antônio Augusto Borges de Medeiros, do Partido Republicano, em seu quinto mandato à frente do governo gaúcho. A eleição ocorrida em novembro de 1922 foi decisiva para a eclosão do conflito. Os federalistas, que apoiaram o candidato derrotado, Joaquim Francisco de Assis Brasil, não aceitaram o resultado e foram à guerra. A Justiça Eleitoral ainda não existia no Brasil.

Os confrontos não ameaçaram Porto Alegre, mas se espalharam por várias localidades, como Passo Fundo, Erechim e Santana do Livramento. Segundo cronologia organizada por José Narciso da Silveira Antunes, ocorreram 283 combates ligados à Revolução. Outro historiador, Sérgio da Costa Franco, estimou que mil pessoas perderam a vida na guerra.

Ep. 6: A Guerra

Uma célebre frase sobre a circulação de informações em tempos de conflitos armados teria sido pronunciada há mais de dois mil anos pelo filósofo grego Ésquilo: “Na guerra, a primeira vítima é a verdade”. Em meio à última guerra dos gaúchos, a Revolução de 1923, jornais dos lados em conflito apresentavam suas versões mais ou menos reais sobre o andar dos combates.

Republicanos contavam com o poderoso jornal “A Federação”. Os federalistas, por sua vez, abasteciam seus aliados com folhas noticiosas que, assim como os jornais de seus adversários, espalhavam-se pelo Rio Grande do Sul.

Ao lado dos confrontos físicos, o Estado viveu sua guerra de papel.

Na primeira hora da madrugada do dia 14 de dezembro de 1923, Joaquim Francisco de Assis Brasil assinou o Pacto de Pedras Altas, em seu castelo. No dia seguinte, Antônio Augusto Borges de Medeiros faria o mesmo, no Palácio Piratini. Chegava ao fim a última guerra dos gaúchos.

Alguns anos depois, na Revolução de 1930, vários dos antigos adversários de 1923 se uniriam no projeto político que, sob o comando de Getúlio Vargas, destituiria o governo do Presidente da República, Washington Luis, e inciaria a chamada "Era Vargas" na história do Brasil.

Ep. 8: O Pacto de Pedras Altas

Exposição inaugurada em Pelotas-RS

A exposição “Centenário da Revolução de 1923 e do Pacto de Pedras Altas”, integrou as atividades do evento que celebrou os 100 anos do acordo de paz que pôs fim à última guerra entre os gaúchos.

Nos dias 7, 8 e 9 de dezembro, em Pelotas e Pedras Altas, além da mostra histórica, ocorreram palestras, lançamento e distribuição de livros, apresentações e visitas culturais, sob a coordenação da presidente do TRE-RS (Tribunal Regional Eleitoral do RS), desembargadora Vanderlei Teresinha Tremeia Kubiak.

Clique nas imagens para ampliar a visualização dos painéis.

Painel de Apresentação - Frente

Painel de Apresentação - Verso

Painel Assis Brasil - Frente

Painel Assis Brasil - Verso

Painel Campanha Eleitoral de 1922 - Frente

Painel Campanha Eleitoral de 1922 - Verso

Painel Contestação dos Resultados Eleitorais - Frente

Painel Contestação dos Resultados Eleitorais - Verso

Painel Início do Conflito Militar - Frente

Painel Início do Conflito Militar - Verso

Painel A Escalada dos Conflitos - Frente

Painel A Escalada dos Conflitos - Verso

Painel A Paz Negociada - Frente

Painel A Paz Negociada - Verso

Painel O Pacto de Pedras Altas - Frente

Painel O Pacto de Pedras Altas - Verso

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